quarta-feira, 23 de julho de 2014

Tenho saudades de ti, amigo





Sabes amigo, hoje…
Nem sei porquê hoje,
Apeteceu-me escrever estas palavras
Relembrando a nossa velha amizade,
Sei que deves estar tranquilo
Lá no etéreo Além,
Certamente a pensar nos aviões
Que tanto amavas!

Fomos como irmãos, quiçá, mais que irmãos,
Tinhamos o respeito e a sinceridade
Como pilares fundamentais
Que a nossa juventude aceitava, com alegria esfusiante
E da pujança com que a vida
Nos contemplava a cada dia;
Os nossos alvoreceres, meu amigo
Tinham a luz colorida da felicidade
E os sorrisos do futuro,
Que os nossos abraços de fraterna amizade
Transformavam em camaradagem!

Desejava eu, naquele nosso tempo,
Voar pelos céus do atrevimento
Em voos rasantes, pelas copas das árvores
E roçando os campos petrolíferos de Belas,
como tu, meu amigo, piloto audaz;
Lembras-te, sem dúvida de Belas, em Luanda
Logo a seguir ao aeroporto, campos rasos,
De extensão continental
Hoje , bem diferentes daquela época!

Sabes, meu velho amigo…
Tenho saudades de ti,
Nunca te disse, nem sei se te apercebeste alguma vez
Mas tu eras o meu Idolo, eu admirava-te,
Pela tua personalidade, inteligência e tenacidade
Foste o meu melhor amigo, Luiz Carlos;
Foi bom o que passámos juntos e que eu jamais esquecerei,
Lamento com tristeza, que te tenham desviado dos amigos,
E que te fizessem uma pessoa menos feliz!

Gostaria agora dar-te um abraço,
E sentados nas escadas do tempo,
Recordarmos tantos e belos momentos,
Que passamos juntos
E volltarmos a sobrevoar aqueles campos,
Eu aos comandos do teco-teco Piper cub,
Segurando o manche com a firmeza da coragem
Que tu me impunhas, como comandante,
E eu simples aprendiz a que o Destino
negou ser piloto, de aviões como tu
Esse mesmo Destino, que a ti, a vida roubou!

Sabes, meu velho amigo,
Doem-me as saudades, guardadas na minha memória,
das noitadas que passávamos, a falar de namoradas e paixões!

Ah…meu amigo, tomara que este Destino
Que nos tem contrariado os sonhos,
Tenha a coragem de nos fazer encontrar um dia,
  no hangar que frequentas, possamos fazer taxiway
E voarmos, juntos serenamente
Pelos céus da Eternidade…
Tu, meu comandante e eu eterno aprendiz.

José Carlos Moutinho

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quem és tu, Pátria?



Quem és tu Pátria, da lingua que eu falo,
Terra linda aonde eu há tantos anos nasci,
Dentro de mim está a revolta que não calo,
Hoje minha tristeza é maior da que jamais senti.

Patria minha,desde que me conheço como gente
Sempre te conheci  cinzenta, apesar de tanto sol,
Vi os teus filhos partirem, com fome pungente
Buscando outra Patria, outra vida, outro farol.

Fugiam de ti, outrora, pois cerceavas a liberdade
Com campos de concentração, como o Tarrafal,
Hoje dás uma liberdade amorfa, sem verdade,
Emigram doutores, desempregdos, aqui está mal.

Ah…Pátria qual será o teu futuro que vejo incerto,
Perdeste a postura, quiçá a digniddade de antanho,
Eras um Império que o mundo invejava, por certo,
Agora és uma subserviente ovelha no rebanho.

Começo a sentir saudades do tempo da voz calada,
Havia fome, iletrados, miséria,repressão e respeito,
Eras tristemente, pelo mundo, ignorada à descarada,
O que nos esperava da desgraça, eram dores no peito. 

Lamentavelmente hoje não sabemos com que contar,
Ai, Pátria vê se despertas dessa letargia que nos mata,
Que será de nós, perdemos tudo, quem nos vem salvar,
Queremos viver como gente,não submetidos a esta pata.

País da minha lingua, foste Império, glorioso, navegador,
Converteste mundos e povos, tiveste alguma nobreza,
Mas perdeste tudo, de Olivença até ao longinquo Timor,
Minha querida Pátria, hoje não passas de uma tristeza.

Pátria, minha Pátria, tampouco soubeste negociar, na paz
Com os povos que colonizaste, porque a politica te anulou,
Podias hoje ser a força do mundo lusófono, que nos apraz
Preferiste a falsa demagogia, espoliar gente que tanto lutou.

Gostaria ver-te grande, Pátria do meu sol, da minha vida,
Receio todavia, que nos vindouros anos, sejas mediocridade,
Expulsando vendilhões sem alma e de ganância desmedida
Seremos num futuro próximo uma Nação com mais dignidade,

José Carlos Moutinho

domingo, 20 de julho de 2014

Sou o que eu quero ser





Sou luz nas noites sem estrelas,
brisa no estio das ilusões,
folha esvoaçante da esperança
e trigal em campos áridos;
Sou cor nos dias esmorecidos
oásis nas manhãs adormecidas
e sol no cinzento do inverno!

Sou tudo o que eu quiser ser,
porque em mim,
estão todos os sonhos
que me permitem divagar,
e fazem da minha alma,
uma mariposa colorida
pelas fantasias
que o meu sentir inventam!

Sou o amanhã risonho,
no hoje desfalecido
sou o futuro do sucesso
do passado saudoso!

Sou o que eu quero ser,
e serei sempre
o que o meu querer, desejar,
nem sei se gosto do que sou
mas aceito serenamente
que a vida me faça viver como sou;
Sou a oposição dos negativistas,
porque o meu sorriso
é a felicidade que me faz caminhar!

Sou o que eu sempre desejarei ser,
Ignorando o que os outros
pretendam que eu seja.

José Carlos Moutinho

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Quem és tu...


Quem és tu…

Andrajoso da vida,
Filho  bastardo  da desgraça,
Que vagueias entre caixas do lixo
Buscando restos da fartura desperdiçada,
E vives das esmolas dos teus pares
Antes, teus companheiros sociais?

Quem és tu…

Que há tão pouco tempo te rias, altivo,
Caminhavas com a elegância dos felizes,
Envergavas tecidos de belos matizes
de costureiros da moda, preço proibitivo?

Quem és tu…

Que te levavas pelas estradas da diversão
Nas férias de sonho.
Em automóvel de luxo, com emoção,
Navegavas no teu iate da prosperidade
Ou em cruzeiros, pelo mediterrâneo?

Quem és tu…

Que moravas em bela moradia,
Tinhas os filhos em colégios privados,
Empregadas, jardins, piscina e mordomia
E vestias camisas de seda, com brocados?

Quem és tu…

Vitima da fatalidade da vida,
Provocada pelos incapazes mentais
Ou talvez, de financeiros de ganância incontida?

Perdeste tudo
Até a dignidade vais perdendo,
Porque esta não é solidária com a fome!

Quem és tu…
Pobre ser humano que tanto tinhas
E agora nada tens,
Pensa bem nesse teu infortúnio,
Pois é uma lição de humildade
a ter na escola da vida.

José Carlos Moutinho 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Tardam as palavras





Fazem-se tardias as palavras ausentes,
caladas nas gargantas da revolta
que teimam em se escusarem
no grito da liberdade do sentir!

As prepotências controlam
as fraquezas humanas,
dominam as vontades entristecidas
pelo tempo que as subjuga!

Caminha-se por estradas poeirentas,
esburacadas pelos ventos da tirania,
Folhas secas de esperança finita
colam-se nos rostos suados,
As estrelas perderam a luz
na escuridão da lua
escondida pela arrogancia do poder!

Respira-se ar saturado pela indiferença
no pantanal insalubre das injustiças,
que intoxicam vilmente a dignidade
e ignoram a pureza da humildade!

Sobrevive-se nos dias moribundos,
porque as alvoradas
escurecidas pela apatia
tingem de cinzento
as tardes perdidas nas nuvens da incerteza!

Correm as horas, esvaem-se os anos
e as palavras continuam a escusarem-se
nas gargantas caladas
pelo medo que penetra
o peito atrofiado e dorido!

As palavras calam-se assustadas
na coragem esmorecida da cobardia
de se enfrentar a gentalha.

José Carlos Moutinho

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Rio de desassossego





Sou como um rio de desassossego
e corro veloz e intrépido
pelo leito da minha ansiedade!

Deslizo por entre os canaviais
dos meus sonhos,
com a energia da maré alta
que me navegue a porto de abrigo!

Afasto-me das margens agrestes das mágoas,
abraçado à corrente que me conduz a montante,
sorrio-me nas braçadas que me emergem
das agruras que me sufocam!

Tenazmente vencerei a ondulação
que me afronta na ventania fria, indiferente
ao meu agitado sentir de alma,
e chegarei à praia da minha serenidade!

Com a maré alta,
sou exaltado por sentimentos de esperança,
e navego...
navego sem rumo
no balanceio das agitadas águas dos tempos,
até que a minha essência se acalme
e se refugie
no remanso de mim.

José Carlos Moutinho