CONFISSÃO DE UM SONHADOR
José Carlos Moutinho
Portugal
10/8/2026
Longe ficou aquele meu tempo
onde eu me deixava levar pela ilusão
e, transportado por sons imaginários,
navegava em marés inquietadas por sonhos.
Apesar dessa inquietação
que agitava o meu viver,
eu sentia um prazer desmedido
em imaginar coisas, talvez até, impossíveis.
Enquanto, lá fora, o ruído da vida
tumultuava as vivências,
dentro de mim existia um outro murmúrio —
suave, porém, insistente —,
forçando-me à ousadia da escrita.
E, perante a simbiose da ilusão e do sonho,
deixava-me catapultar para as palavras
que eu ia escrevendo
e que outros, ao lê-las,
diziam ser poesia.
Nunca me permiti iludir com tal proeza,
porque era genuína e muito sentida a emoção
que me concedia o dom de plasmar palavras
naqueles papéis alvos de anseios.
Hoje, passados tantos e tantos anos,
olho, serenamente, para aquele maravilhoso ontem
e, com alguma imodéstia, confesso
que terei alguma aptidão
para, como amabilidade,
transformar pensamentos e anseios em textos.
Serão poemas, serão prosas,
será literatura...
Nada me importa.
Não, não me julguem arrogante ou presunçoso.
Não me importa que qualifiquem ou adjectivem
o que escrevo,
porque me dá imenso prazer em fazê-lo.
E, mais ainda, cresce em mim uma enorme felicidade
por ter o privilégio indescritível
de saber quando dizem gostar do que escrevi.
Concluo, com esta narrativa feita poema
(ou o que desejarem chamar-lhe),
que aquelas emoções de outrora
mantêm-se em mim,
natural e sinceramente,
com a mesma intensidade.
Admito, pois... sou um sonhador!



