segunda-feira, 24 de abril de 2017

25 de Abril do Século XX





Era um tempo de escuridão,
os dias vestiam-se de tristeza,
as noites clamavam por liberdade
porque as vozes eram estranguladas
por algozes despidos de quaisquer sentimentos…

Era um tempo sem futuro para tantos
que sobreviviam com as migalhas de alguns,
o ar que se respirava era acidificado pela opressão,
a possibilidade de se chegar mais longe na educação
era simplesmente castrada pelas dificuldade
de acesso às poucas universidades existentes!

O trabalho efectuado por menores era prática comum
pois com a gloriosa 4ª classe do ensino básico
já se obtinha o “alvará” para a labuta do ganha pão
que tanto escasseava naquele país...

Depois...
Depois aconteceu uma Revolução
que se coloriu de vermelho, cor do sangue,
que felizmente não foi derramado...
e também da cor do cravo que simbolizou a Revolução!

Tudo mudou...embora, inicialmente com entraves, que se contornaram.

Agora, vivemos um tempo metamorfoseado pelo 25 de Abril de 1974.

José Carlos Moutinho
24/4/17

terça-feira, 11 de abril de 2017

Para lá da janela




Fechei-me nos meus silêncios,
guardei dentro do meu peito
as palavras vazias
sopradas por ventos em desvario...

Aquieto-me na solidão que me contempla
e penso serenamente, sentado na nostalgia...
Olho a paisagem que me espreita pela janela
e, inesperadamente, invade-me uma melancolia
da cor do tempo passado!

Olho fixamente de olhos semi-cerrados
o nada para lá da janela,
e, imagino-me cavaleiro de fantasias,
cavalgando pelas alegrias esquecidas…
agarro-as, trago-as novamente a mim
e desperto os meus silêncios
na solidão que me sorri.

José Carlos Moutinho

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Ai, o Poeta




Ai, o poeta…

…pode ser fingidor,
dizer que sente o que realmente não sente,
pode ser imaginativo, inventando fantasias,
pode até criar dores, onde há alegria e sorrisos
dizer que existe felicidade
num campo de imensa tristeza!
O poeta pode, com suas palavras, pintar rios
em secos e inférteis campos,
sentir o perfume da maresia
onde o mar nunca existiu!

O poeta é mentiroso ou sincero...
pois o poeta é tudo isso e...nada,
pois é somente um criador
que ao deixar-se levar pelo sonho da poesia
permite-se ser dono da sua verdade,
que pode nem ser a verdade dos outros!

Ao poeta é praticamente permitido tudo
desde que use dignidade,
que jamais ofenda ou provoque quem o lê,
porque é para o leitor que ele escreve e respeita!

O poeta poderá ter uma mente em desvario
ou sentir a serenidade do bucolismo romântico,
ou até ser um eterno apaixonado, sem paixão,
pode também convictamente falar de amor,
sem que haja alguém na sua vida
tem todo o direito de ser positivo ou negativo
nos pensamentos que transmite para o poema!

Ai, ao poeta é-lhe admitido falar com nobreza
da solidão e dos silêncios
e estar rodeado por multidões,
dizer da dor que lhe comprime o peito
e sentir-se profundamente feliz!

E tudo porque o poeta é…
mentiroso, verdadeiro, fingidor?
Não! Porque o poeta é…
simplesmente Poeta.

José Carlos Moutinho

domingo, 2 de abril de 2017

Eu e o meu mar




Vou até ali
pertinho daqui
onde o mar me espera,
quero beber dele a serenidade,
aspirar-lhe o perfume da eternidade
e passear o meu olhar sobre o seu dorso…

Sei que ao contemplá-lo,
sentado numa das pedras da utopia
sentirei no meu peito a frescura da imaginação,
que, de vez em quando, se transforma em poema…
Nem me preocupa se é um bom poema
ou um grito da minha alma…

Nem sei sequer, o que é um bom poema
ou até se estes existem...
o que sei, isso posso afirmar,
é que o mar me seduz, me inspira
e escrevo inebriado pelo seu encanto misterioso
que me leva em devaneio até ao seu horizonte
onde ele se abraça ao céu azulado…

Então, feliz, fecho os olhos e navego…
Navego…

José Carlos Moutinho