quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Trevas



O céu transfigurara-se,
as trevas penetravam as frestas das janelas,
ensombravam as paredes imóveis
e criavam imagens fantasmagóricas!

Nas ruas escurecidas
caminhavam pés descalços,
sangrando de dor,
da vida madrasta,
que não pediram!

A luz ténue soltava-se tremulenta
dos candeeiros espantalhos
e colava-se nos corpos deambulantes,
ansiosos pela alvorada da alegria,
que lhes oferecesse a luz da dignidade
…e esta demorava ou escusava-se
na noite eterna e escura de tristeza!

Parecia que o mundo desabava
sobre aquelas cabeças vazias, de felicidade,
rosnavam os ventos, assustadores
tornando o cenário dantesco,
voavam cartões camas,
desnudando corpos empalidecidos,
e… os gemidos sofridos calaram a noite!

Chegavam os raios cinilantes
da aurora tão desejada,
que penetrasse a alma dos infelizes
e lhes desse o calor da vida...
…e a aurora despertou brilhante,
mas os filhos de um outro deus
continuaram nas trevas,
da fome, do frio e na escuridão da miséria.

José Carlos Moutinho

Sem comentários:

Enviar um comentário