José Carlos Moutinho
24/8/2026
Portugal.
Obviamente que não pedi para nascer.
Seria uma alucinação pensar semelhante disparate.
Todavia, tenho de agradecer aos meus pais
por me terem trazido ao mundo,
talvez, até, por descuido,
num instante de felicidade.
Assim, sou feliz por ter tido a felicidade
por esse momento ter acontecido
e agradeço ao universo,
do modo mais profundo,
a sorte imensa da mãe
que a vida me deu.
Uma mãe que, pese embora
as dificuldades económicas,
se desdobrou em amor e carinho
para que o seu menino,
nascido tardiamente, nos tempos de outrora,
fosse feliz como os demais.
Tive, portanto, uma infância maravilhosa,
onde a ausência de um brinquedo
era compensada pelo abraço terno
da minha mãe.
A adolescência passou célere,
amadurecida antes do tempo,
por uma vivência responsável e digna,
em que os meus valores
caminhavam à frente da minha idade.
A história da minha já longa existência
foi feita em percursos de ética,
por caminhos de honra.
Fiz-me homem sem recorrer a subterfúgios
nascidos da ilegalidade ou da desonra.
Constituí família, criei filhos,
plantei uma árvore e escrevi livros.
Se, alguma vez,
a minha ironia ou o meu sarcasmo
surgiram quando o momento exigia seriedade,
ou se brinquei com assuntos
que não admitiam brincadeira,
peço, sinceramente,
que me perdoem.
Nunca foi o meu propósito ferir.
Da minha parte, sigo em paz,
porque há muito perdoei
todos aqueles que, de algum modo,
me magoaram.
Que mais posso desejar,
nesta felicidade serena
e neste privilégio de uma provecta idade?
Nada, certamente.
Basta que a vida me leve nas suas mãos,
não permitindo que algo de anormal
me atinja, conduzindo-me à dependência
ou a qualquer situação
que eu já não consiga controlar.
Embora esta serenidade
que o tempo hoje me concede,
um dia terminará.
Tudo termina nesta vida.
Então, quando esse dia, fatalmente, chegar,
e me encontrarem
num enfeitado ataúde,
de rosto pálido, sem sangue,
corpo inerte e frio,
não venham com o cliché de sempre:
"Afinal, era uma boa pessoa."
E se alguém houver entre os presentes,
que me ignorou em vida,
não ouse balbuciar palavras piedosas
suadas de falsidade,
porque agora, nada valem
Não.
Não digam nada.
Se em vida pensavam que eu não merecia
a vossa presença,
não venham; permaneçam ausentes.
Mas, se entenderem que devem estar presentes
porque me estimavam enquanto vivi,
então não chorem.
Não me cubram de flores... ainda sufoco!
Sorriam, simplesmente.
Sorriam e cantem.
Porque terei o privilégio
de conhecer o Além,
de entrar no Mistério.
Ah... antes que me levem,
perante a consternação de amigos sinceros
e de familiares,
para a cremação,
se puderem, leiam poemas meus.
Acredito que os ouvirei,
porque o meu corpo, agora imóvel,
já libertou a minha alma.
E ela, certamente, escutará
a vossa gentileza
na voz de quem disser alguns dos meus versos,
fazendo-me acreditar, lá do Alto,
que talvez...
talvez eu tenha sido poeta.
Um abraço. Muito obrigado.

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