O CREPÚSCULO DAS PALAVRAS
Era um tempo descontraído, isento de
problemas. Havia, porém, algo que lhe mudara ligeiramente o comportamento, um
hábito que colhera os seus primeiros frutos há imensos anos, ainda nos verdes
anos da juventude: o escrever. Diziam-no detentor de uma veia poética. Ele
duvidava; mas, em boa verdade, habitava nele um sentir diferente dos demais
amigos, que escusavam as palavras e a escrita. Ele não; entregava-se aos seus
“poemas” com sincera emoção. Poemas, talvez, nascidos da inocência própria dos
seus juvenis quinze anos.
Todavia, passados cerca de cinquenta
anos, aquele ímpeto da juventude regressou, trazendo uma impetuosidade que o
entregou novamente às palavras, supostamente poéticas. Timidamente, começou a
divulgar o que produzia, sem que, pela sua mente, passasse a menor ideia ou
desejo de converter aquela escrita em algo mais.
Não fossem os amigos e aqueles que o
liam através das redes sociais, jamais pensaria vir a publicar um livro; tal
feito seria a ilusão pura de um sonho nunca antes sonhado. A verdade, porém, é
que animado e incentivado por esses leitores, tomou um dia a ousadia de
publicar a sua primeira obra de poesia. O sonho outrora inexistente tornou-se
realidade, pleno de anseios, justificados pelo sucesso daquele primeiro filho
literário.
Ele vibrava de emoção a cada
lançamento, a cada apresentação, de tal modo que, a partir de então, publicava
um novo volume a cada ano que passava. Coabitava nele uma simbiose de alegria e
receio de que, a qualquer momento, aquela “glória” se esfumasse repentinamente.
Sabia, afinal, que a glória é sempre uma entidade passageira para outrem. A
existir, ela fixar-se-ia, sem dúvida, somente na memória do próprio autor.
Foram, no entanto, muitos anos e,
consequentemente, muitos os livros publicados. Havia prazer, alguma felicidade
e, obviamente, uma profunda gratidão para com quem o acompanhava — não só nos
lançamentos, mas na assistência constante, cujas salas lotavam de pessoas,
amizades e leitores fiéis. Era fantástica, em cada apresentação, a euforia que
se vivia.
Mas… na vida há sempre um,
"mas". Novos autores foram surgindo, talvez em número exagerado, cada
qual movido pelo mesmo desejo do protagonista desta crónica. Foi então que as
salas, antes repletas, foram tornando-se geometricamente maiores pela ausência
das pessoas que outrora o elogiavam e apoiavam; era preciso ceder espaço e
aplausos a outrem, transformando este meio literário numa Babel que a ninguém
apraz. O excesso de “editoras” e a imensidão de autores, contrastando com um
país tão pequeno e que tão pouco lê, conduziu este ecossistema ao caos.
Após tantos anos de uma escrita
diversificada — pois, tendo começado na poesia, palmilhou os caminhos dos
contos, das biografias e dos romances —, resta a constatação. Claro que o acto
de escrever não morrerá; mas o publicar, dada a crescente dificuldade em
divulgar, terá certamente encontrado o momento da sua finitude.
José Carlos Moutinho
30/6/2026