quarta-feira, 1 de julho de 2026

#O CREPÚSCULO DAS PALAVRAS

 

O CREPÚSCULO DAS PALAVRAS

Era um tempo descontraído, isento de problemas. Havia, porém, algo que lhe mudara ligeiramente o comportamento, um hábito que colhera os seus primeiros frutos há imensos anos, ainda nos verdes anos da juventude: o escrever. Diziam-no detentor de uma veia poética. Ele duvidava; mas, em boa verdade, habitava nele um sentir diferente dos demais amigos, que escusavam as palavras e a escrita. Ele não; entregava-se aos seus “poemas” com sincera emoção. Poemas, talvez, nascidos da inocência própria dos seus juvenis quinze anos.

Todavia, passados cerca de cinquenta anos, aquele ímpeto da juventude regressou, trazendo uma impetuosidade que o entregou novamente às palavras, supostamente poéticas. Timidamente, começou a divulgar o que produzia, sem que, pela sua mente, passasse a menor ideia ou desejo de converter aquela escrita em algo mais.

Não fossem os amigos e aqueles que o liam através das redes sociais, jamais pensaria vir a publicar um livro; tal feito seria a ilusão pura de um sonho nunca antes sonhado. A verdade, porém, é que animado e incentivado por esses leitores, tomou um dia a ousadia de publicar a sua primeira obra de poesia. O sonho outrora inexistente tornou-se realidade, pleno de anseios, justificados pelo sucesso daquele primeiro filho literário.

Ele vibrava de emoção a cada lançamento, a cada apresentação, de tal modo que, a partir de então, publicava um novo volume a cada ano que passava. Coabitava nele uma simbiose de alegria e receio de que, a qualquer momento, aquela “glória” se esfumasse repentinamente. Sabia, afinal, que a glória é sempre uma entidade passageira para outrem. A existir, ela fixar-se-ia, sem dúvida, somente na memória do próprio autor.

Foram, no entanto, muitos anos e, consequentemente, muitos os livros publicados. Havia prazer, alguma felicidade e, obviamente, uma profunda gratidão para com quem o acompanhava — não só nos lançamentos, mas na assistência constante, cujas salas lotavam de pessoas, amizades e leitores fiéis. Era fantástica, em cada apresentação, a euforia que se vivia.

Mas… na vida há sempre um, "mas". Novos autores foram surgindo, talvez em número exagerado, cada qual movido pelo mesmo desejo do protagonista desta crónica. Foi então que as salas, antes repletas, foram tornando-se geometricamente maiores pela ausência das pessoas que outrora o elogiavam e apoiavam; era preciso ceder espaço e aplausos a outrem, transformando este meio literário numa Babel que a ninguém apraz. O excesso de “editoras” e a imensidão de autores, contrastando com um país tão pequeno e que tão pouco lê, conduziu este ecossistema ao caos.

Após tantos anos de uma escrita diversificada — pois, tendo começado na poesia, palmilhou os caminhos dos contos, das biografias e dos romances —, resta a constatação. Claro que o acto de escrever não morrerá; mas o publicar, dada a crescente dificuldade em divulgar, terá certamente encontrado o momento da sua finitude.

José Carlos Moutinho

30/6/2026

 

Entrevista com Planeta Azul, editora de Calemas

Ver esta publicação no Instagram

Live Planeta Azul Editora

Uma publicação partilhada por Planeta Azul Editora (@planetazuleditora) a