terça-feira, 30 de junho de 2026

#O RUIDO DO MUNDO

O RUIDO DO MUNDO
José Carlos Moutinho
Portugal
30/06/2026

Qual a razão de tanto ruído perturbador,
quando o simples silêncio é tão apaziguador?

Discute-se, ofende-se, agride-se por nada,
quando o diálogo é a fonte do entendimento.

Estranho este mundo,
no qual todos somos protagonistas
desta confusa peça teatral da vida,
onde há atores violentos e medíocres,
e outros que, em perfeita harmonia,
sabem caminhar ao lado dos demais.

Bem sei que existe, em tudo isto,
um baú de sentimentos
onde se ocultam
os males, os defeitos e as virtudes
da humanidade.

Mas creio que tudo poderia ser diferente,
bem melhor.

Um lugar onde a harmonia
fosse companheira da paz,
e ambas repousassem
nos braços serenos da razão.

Passam os anos por nós
numa velocidade alucinante,
e a cada ciclo surgem mutações
por vezes inexplicáveis,
que inquietam quem ainda guarda
o privilégio de ser simplesmente normal,
na mais elementar condição humana.

Mas não.

Tudo parece conduzir à violência,
à discórdia,
à hipocrisia e à falsidade,
num sufoco tão profundo
que nos leva a questionar:
a razão
de tanta falta de razão.

terça-feira, 23 de junho de 2026

#LABIRINTO DO PENSAMENTO

 

LABIRINTO DO PENSAMENTO
(Aprisionado na Timidez )
 
José Carlos Moutinho
Portugal
23/6/2026
 
Oh, mistério dos mistérios da vida,
Que o homem contempla no dia a dia,
Sob um tempo que a todos controla,
Mas que ignora olhares e lamúrias,
Numa indiferença constrangedora.
 
Tempo que tudo sabe e tudo cala,
Que corre célere e louco,
Alheio a suspiros e a sorrisos,
Fazendo seus todos os caminhos
E margens, num eterno viajar.
 
Quisera o homem que este mesmo tempo,
Que lhe tem outorgado a longevidade,
Conseguisse arrancar de si
O seu descrente e perene EU;
E que, num breve lapso,
O transportasse a um sentir ousado.
 
Chamam-lhe poeta
Que a ele, tal maré inquieta,
O faz navegar na descrença,
Porque na sua alma
Mora o afã da escrita perfeita,
A despeito de tantos encómios de outrem.
 
Anseia soltar-se das amarras e limitações,
Para que, em voo livre e pleno,
As asas corajosas do vento o levem,
Na total liberdade e audácia rebelde
De uma gaivota sobre o mar.
 
Mas nada acontece.
Porque a âncora que o prende a si mesmo
Dificulta-lhe a senda para um sentimento puro,
Despojado de atritos e de conflitos mentais.
 
Ah, pensamento que lhe tolda a razão
E o mantém enclausurado na timidez… 

Que a vida, por fim, o liberte.

sábado, 20 de junho de 2026

#DEPOIS DOS APLAUSOS

DEPOIS DOS APLAUSOS
José Carlos Moutinho
20/06/2026

    Se, por acaso, um dia te sentires um pouco abandonado pela atenção que antes te dedicavam, não estranhes. É algo que acontece com frequência nos tempos que correm. Ou talvez aconteça já há algum tempo. Interrogo-me sobre as razões e, para meu espanto — ou talvez não —, descubro que são muitas e tão diversas que acabam por me confundir.
Penso, por exemplo, num amigo sonhador que, certo dia, decidiu regressar à escrita depois de vários anos de silêncio. O momento parecia propício para retomar uma caminhada literária feita de livros que, ano após ano, se atrevia a publicar, encorajado pelos muitos amigos que foi conquistando nas redes sociais.
    Começara muito novo. Escolhera a poesia como primeiro caminho — ou, pelo menos, era assim que os seus amigos classificavam aquilo que escrevia. Depois do primeiro livro, publicado há mais de uma década, vieram outros. E mais outros. Aos poucos, foi construindo uma estante repleta de poemas, contos, memórias e romances.
    Mas, tal como a flor mais bela não escapa à brevidade da sua existência, também a sorte desse meu amigo se revelou efémera. As salas outrora cheias de leitores, admiradores e amigos foram-se esvaziando. Onde antes havia entusiasmo, começaram a surgir cadeiras vazias e silêncios difíceis de ignorar.
    É verdade que, durante muitos anos, publicar um livro era um gesto reservado a poucos ousados. Hoje, porém, atrevo-me a dizer que existem mais autores do que leitores. As editoras multiplicaram-se. Muitas delas limitam-se a desempenhar o papel de intermediárias entre o autor e a gráfica, pouco mais oferecendo do que a promessa de uma publicação. Não falo das grandes casas editoriais, mas das inúmeras pequenas editoras que surgiram nos últimos anos, em número talvez excessivo.
    Volto então à questão inicial. Talvez uma das razões para o progressivo esvaziamento das salas esteja precisamente na súbita proliferação de autores. Surgem em quantidade tal que a atenção dos leitores se dispersa, fragmentada por uma oferta quase infinita.
    Perante esta realidade pouco animadora, esse meu amigo confessou-me, há dias, que pondera desistir. Não da escrita — porque quem escreve dificilmente abandona esse impulso —, mas do sonho de continuar a publicar livros. Fá-lo sem amargura, com a serenidade de quem sente ter cumprido um percurso de que se pode orgulhar.
    Ainda assim, espero sinceramente que um dia mude de opinião. Nem que seja por consideração pelos milhares de leitores que continuam a encontrar, nas páginas dos seus livros, uma razão para voltar.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

#A BELEZA DA VIDA

A BELEZA DA VIDA
(Os nossos filhos)
José Carlos Moutinho
19.6.2026
Portugal
 
Quantas vezes me sento, serenamente,
na pedra filosofal da vida,
deixando-me embalar
pelas mãos da gratidão,
em pensamentos que a memória
traz, devagar, de volta.
 
Medito, então,
no milagre da existência —
não só o da natureza,
mas, com redobrado espanto,
o mistério maior
da humana grandeza.
 
Que prodígio desperta
a semente do homem
ao encontrar o útero
fecundo da mulher!
Ali começa
a jornada do embrião,
obra-prima que cresce,
lenta e resiliente,
como a raiz oculta
da árvore mais antiga.
 
Nesta vasta
contemplação interior,
recordo-me dos nossos filhos…
São eles a razão
da nossa felicidade,
que com a sua chegada
deram novo brilho
às nossas existências.
 
Despertam em nós
um turbilhão de sentimentos,
de uma profundidade
que quase não cabe em palavras;
por eles daríamos
a nossa própria vida,
por eles lutamos
para que cresçam dignos
neste mundo inquieto
e tão conflituoso.
Temos o dever
de lhes moldar o coração
na verdade e na honra.
 
São flores únicas
de um jardim só nosso,
continuidade viva
do nosso próprio ser;
vê-los seguir
com honra e sucesso
é o maior orgulho
que a alma pode conter.
Os filhos são, de facto,
o bem mais precioso
que a vida nos oferece
com silenciosa gratidão.
 
Depois… depois,
a vida prossegue,
virão os netos,
filhos dos nossos filhos,
rebentos dos rebentos
que o amor semeou,
num carrossel de vivências…
Até que esta vida imensa,
um dia, suavemente,
se recolha ao seu silêncio.




terça-feira, 16 de junho de 2026

#GLÓRIA LITERÁRIA

GLÓRIA LITERÁRIA
(Meta difícil)
 
Se desejas obter a glória, morre
em vida tens o privilégio da crítica
há quem pense que mérito socorre
glória talvez seja: cunha ou política

Não deixes a imaginação esmorecer
ultrapassa obstáculos vence barreiras
jamais mates a tua paixão de escrever,
Deixa os livros rirem-se nas prateleiras

José Carlos Moutinho
 
16/6/2026

segunda-feira, 15 de junho de 2026

#ENLEVO

 ENLEVO
José Carlos Moutinho
Portugal
2026
 
Aqui me encontro...
e, entre mim e o pensamento,
desliza um rio de emoções caladas,
em cujas águas navegam saudades
de um tempo antigo e vivido,
plasmado em velhas memórias.
 
Na ternura do murmurar da corrente,
ecoa um leve suspiro de paixão,
que, no regaço do sentimento,
desperta cálido, qual abraço de amor.
 
Percebo, contudo,
que as águas, no seu viajar sereno,
de mim se esquecem e me ignoram,
como se eu fora parte das margens.
 
E aqui permaneço,
sentado na pedra — farol outrora encantado —,
a ver correr o caudal alheio,
tão exterior ao meu rio de sentimentos.
 
Neste enlevo,
não dou pela vinda da noite,
que, sorrateira como a ilusão,
me estende um manto escuro...
acaso de desilusão?
pois tudo quanto vivi e senti, 
não passou de um sonho acordado.



sexta-feira, 12 de junho de 2026

#EM JEITO DE REFLEXÃO

Porque gritam assim aquelas pedras do caminho
Será porque as vozes calam perante a mentira?
Águas turvas da hipocrisia filtradas pelo moinho
Escorrem pelos sulcos da humildade que suspira
 
José Carlos Moutinho 
12/6/2026


quarta-feira, 10 de junho de 2026

#A LUIS DE CAMÕES


No dez de junho nasce o nosso Camões,
senhor maior da nossa literatura;
notável na escrita e nas ações,
deixou na poesia a sua altura.
 
Ergueu a luminosa Epopeia
dos portugueses pelo mundo fundo;
foi nobre e soldado de alta ideia,
boémio e pobre, errante pelo mundo.
 
Luís Vaz de Camões, grande patriota,
que fez da escrita a sua firme arma,
da língua a força viva que não desarma.
 
Com Os Lusíadas traçou a rota
da grandeza imortal da nossa Pátria,
e a beleza sem par da língua Mátria.
 
José Carlos Moutinho
10/6/2026






segunda-feira, 8 de junho de 2026

 

EFÉMERA ESPUMA DO PODER
José Carlos Moutinho
Portugal 
7.6.2026
 
Acompanhado pelo silêncio
do pensamento,
caminhava pela vereda da vida.
 
Cruzava-se com pessoas alegres,
outras entristecidas;
algumas cabisbaixas -
sabe Deus em que pensavam.
 
Havia ainda aquelas
que olhavam com ar crítico,
sorrindo,
cujos sorrisos
lembravam mais esgares:
talvez de revolta,
inquietude,
ou sabe-se lá o que ia
na mente daquela gente.
 
Ele continuava a caminhar,
deixando-se embriagar
por uma análise
dedicada ao comportamento daqueles seres.
E pensava: quão diferente
é o ser humano
como figura individual,
e até a humanidade
na sua plenitude.
 
Veio-lhe à mente
a existência da convulsão
nascida da maldade
neste nosso mundo;
lembrou-se
da estupidez da guerra,
produzida por mentes doentias,
movidas pela cega prepotência
de quem se crê senhor
deste mundo
que é de todos nós,
e que tanto anseiam pelo poder
como se este fosse eterno.
 
Tristes energúmenos,
que, se tivessem a capacidade
do discernimento,
saberiam que o seu poder
é tão efémero
como a onda mais rebelde
que se desfaz em espuma
na areia da praia.
 
Na sua caminhada de fim de tarde,
deliciava-se — pelo menos isso —
com a beleza que a natureza
lhe oferecia ao longo das margens
daquele caminho,
sentindo-se feliz
por pertencer ao reduto da gente de bem,
felizmente a maioria neste planeta
onde tantos alienados
o vão destruindo,
superando a crueldade 
dos mais ferozes animais selvagens.



Entrevista com Planeta Azul, editora de Calemas

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