sábado, 20 de junho de 2026

#DEPOIS DOS APLAUSOS

DEPOIS DOS APLAUSOS
José Carlos Moutinho
20/06/2026

    Se, por acaso, um dia te sentires um pouco abandonado pela atenção que antes te dedicavam, não estranhes. É algo que acontece com frequência nos tempos que correm. Ou talvez aconteça já há algum tempo. Interrogo-me sobre as razões e, para meu espanto — ou talvez não —, descubro que são muitas e tão diversas que acabam por me confundir.
Penso, por exemplo, num amigo sonhador que, certo dia, decidiu regressar à escrita depois de vários anos de silêncio. O momento parecia propício para retomar uma caminhada literária feita de livros que, ano após ano, se atrevia a publicar, encorajado pelos muitos amigos que foi conquistando nas redes sociais.
    Começara muito novo. Escolhera a poesia como primeiro caminho — ou, pelo menos, era assim que os seus amigos classificavam aquilo que escrevia. Depois do primeiro livro, publicado há mais de uma década, vieram outros. E mais outros. Aos poucos, foi construindo uma estante repleta de poemas, contos, memórias e romances.
    Mas, tal como a flor mais bela não escapa à brevidade da sua existência, também a sorte desse meu amigo se revelou efémera. As salas outrora cheias de leitores, admiradores e amigos foram-se esvaziando. Onde antes havia entusiasmo, começaram a surgir cadeiras vazias e silêncios difíceis de ignorar.
    É verdade que, durante muitos anos, publicar um livro era um gesto reservado a poucos ousados. Hoje, porém, atrevo-me a dizer que existem mais autores do que leitores. As editoras multiplicaram-se. Muitas delas limitam-se a desempenhar o papel de intermediárias entre o autor e a gráfica, pouco mais oferecendo do que a promessa de uma publicação. Não falo das grandes casas editoriais, mas das inúmeras pequenas editoras que surgiram nos últimos anos, em número talvez excessivo.
    Volto então à questão inicial. Talvez uma das razões para o progressivo esvaziamento das salas esteja precisamente na súbita proliferação de autores. Surgem em quantidade tal que a atenção dos leitores se dispersa, fragmentada por uma oferta quase infinita.
    Perante esta realidade pouco animadora, esse meu amigo confessou-me, há dias, que pondera desistir. Não da escrita — porque quem escreve dificilmente abandona esse impulso —, mas do sonho de continuar a publicar livros. Fá-lo sem amargura, com a serenidade de quem sente ter cumprido um percurso de que se pode orgulhar.
    Ainda assim, espero sinceramente que um dia mude de opinião. Nem que seja por consideração pelos milhares de leitores que continuam a encontrar, nas páginas dos seus livros, uma razão para voltar.

 

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Entrevista com Planeta Azul, editora de Calemas

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