A ESTRADA IMAGINADA
José Carlos Moutinho
Portugal
24/7/2026
Oh, privilégio dos deuses,
permitir-me caminhar calmamente
— porque já muito corri —
por esta estrada vazia,
vazia de preconceitos e maledicências,
iluminada pelo sol mais cintilante da verdade,
contemplada pela sonoridade encantadora
das aves que a sobrevoam,
cujas margens são coloridas
pelas mais belas flores de esperança.
Caminho sobre este tapete aveludado
como se fosse premiado
pelo meu contributo à harmonia
e à dignidade humana…
Cheguei, porém, ao fim da estrada,
que, infelizmente, era demasiado curta,
contrariando meus anseios latentes
e levando-me a uma profunda meditação
sobre o que acabara de passar…
Seria um sonho?
Talvez uma miragem?
Ou, o que seria mais natural,
ter sido acometido por uma alucinação?
Existiria mesmo essa estrada
que eu acabara de percorrer
e sobre a qual descrevi tantas maravilhas?
No fim daquela via,
obviamente imaginada,
sentei-me num pedregulho
que representava a agudeza da realidade,
e entreguei-me a uma reflexão profunda
sobre as minhas inquietações
— que contrariavam, de maneira cruel,
tudo o que eu, em pensamento, tanto ansiava.
Que desilusão!
Que privilégio tão efémero
aceitei dos deuses…
Provavelmente porque esses mesmos
não passam de ficção e pura imaginação.
Ah, como todos nós,
arrogantes passageiros desta vida,
seríamos tão mais felizes
se aquela e outras
estradas fossem verdade!
Sem comentários:
Enviar um comentário