terça-feira, 29 de setembro de 2026

#ANGOLA SEMPRE EM MIM

ANGOLA SEMPRE EM MIM
José Carlos Moutinho
29/9/2026 
Portugal

Porque escrevo eu tanto sobre Angola,
se angolano não sou?
Perguntar-me-ão muitos dos que me leem.

E eu, que angolano de nascimento não sou,
guardo na alma a alegria e a felicidade
de lá ter vivido.

Há em mim um vibrar de emoções
que o tempo não apagou.
E sempre que, na lonjura que nos separa,
a saudade clama por aquela terra,
eis que encontro a justificação
para que as minhas palavras,
imbuídas de sentimentos felizes
e, por vezes, tristes,
pela distância que nos separou,
ganhem a força da paixão
que me impele a caminhar, em sonhos,
por aqueles vermelhos caminhos
que outrora pisei
com o prazer de viver.

Quando escrevo,
recordando batuques, imbondeiros,
mulembeiras e cajueiros,
quissanges e Mussulo,
a praia de São Jorge e a Corimba,
liberta-se de mim, em voo silencioso,
um olhar sobre um passado já tão distante,
que me devolve vivências inesquecíveis,
embora irrepetíveis,
de um tempo único.

É por estas simples coisas
com que a vida me agraciou,
pela benesse de um dia
me ter levado a viajar num velho navio,
saído de um cais de Lisboa,
num cinzento dia de Novembro,
para, dezoito dias depois,
ser acolhido por um belíssimo sol tropical,
numa tarde que anunciava
um mundo inteiramente novo.

Acreditem ou não,
tudo era diferente:
o povo, o sol,
os cheiros, a baía de Luanda,
a fortaleza de São Miguel,
a alegria daquela gente…

Tão diferente do clima frio,
da tristeza de um povo oprimido,
do vestuário sombrio das mulheres,
como se vivessem em permanente luto,
e daquele sol que, envergonhado,
parecia esconder-se da miséria
por detrás de uma esperança adormecida.

Então, é por tudo isto
e por tanto mais
que nesta folha não cabe,
que Angola, Luanda e tantas cidades
que um dia conheci
continuam a viver em mim,
numa simbiose de saudade e tristeza.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

#À SOMBRA DA MULEMBEIRA

À SOMBRA DA MULEMBEIRA
José Carlos Moutinho
29/9/2026
Portugal

Sob esta mulembeira da saudade,
onde me encontro em pensamentos,
sinto o murmúrio do silêncio do tempo,
que me cantaroleia poemas de outrora.

Há um carinho subtil
naquela brisa de palavras
que me encanta
e me transporta para lá,
para aquele longe que um dia foi perto.

Concentro-me no ritmo que escuto,
cantado por uma voz estranha, desconhecida,
que, sem eu perceber, me embala
pelos caminhos outrora percorridos,
vestidos de um pó intenso, vermelho,
talvez tingido pelo sangue dos antepassados,
de um povo que permanece vivo dentro de mim.

Nesse instante, uma doce simbiose
de nostalgia e melancolia
envolve todos os meus sentidos.

Confesso, todavia,
que há dentro de mim,
como o palpitar de uma maré inquieta,
uma explosão de prazer
e, simultaneamente, de profunda saudade.

Mas... aquele murmúrio tão doce,
que me levava por paragens longínquas,
desfez-se num ápice de imaginação,
deixando-me outro silêncio,
agora dentro de mim,
à sombra daquela frondosa mulembeira africana.



domingo, 13 de setembro de 2026

#NAS TARDES MELANCÓLICAS

 NAS TARDES MELANCÓLICAS
José Carlos Moutinho
13/9/2026
Portugal

Nas tardes melancólicas,
em que o pensamento se inquieta,
deixo-me envolver na sua corrente,
levado pelas mais diversas meditações.

E penso, interrogando-me:

Será que o Universo conspira
contra a humanidade,
ou será a humanidade
que provoca o Universo?

Obviamente, fico sem resposta.
Decido, então, ser eu
a viajar pelos meus pensamentos,
que desejaria românticos
ou líricos...

Mas, contrariamente,
levam-me ao caos.

Sim...
ao caos em que vivemos.

Uma constante inquietude
em cada dia,
absorvendo medos
em cada esquina,
provocações gratuitas,
sem razão para existirem.

A vaidade veste-se de soberania,
acompanhada pela hipocrisia,
e arroga-se superior.

A amizade torna-se coisa vã.

E quando pensamos
que ela ainda existe,
explode a frustração
em lava de absoluta desilusão.

Quantas vezes
recuo aos momentos de outrora
e, embora aberrações houvesse,
penso que quase tudo
era bem diferente.

As pessoas respeitavam-se,
confraternizavam,
não se espoliavam,
não se agrediam
com a mesma facilidade de agora.

Talvez a memória
também tenha os seus enganos...

Mas angustia-me pensar no futuro.

Não por mim,
que já ultrapassei
o limbo do razoável.

Preocupa-me, sim,
o mundo que ficará
pelos meus filhos e netos.

Vejo um mundo perdido
em falsidade,
egoísmo,
arrogância,
num anseio louco pelo poder
e em tanta... tanta maldade.

Pobre humanidade,
que sofre às mãos
de homens sem escrúpulos,
de políticos mal preparados
e corruptos,
que lesam as próprias pátrias
e, consequentemente, o povo,
com a maior desfaçatez,
em proveito próprio.

E eu volto a interrogar-me:

Será o Universo
que conspira contra nós?

Ou seremos nós
a conspirar contra ele?

Triste mundo este
em que vivemos.



sábado, 12 de setembro de 2026

#SUSPIRO POÉTICO

 

SUSPIRO POÉTICO

Sonhei ilusões
num tempo em que eram livres

depois, depois...
o tempo mudou, tudo se transformou

ficaram as lembranças...
escondidas nas areias dos sonhos,

que, entretanto...
as marés levaram para longe

então o eterno tempo...
indiferente aos sentimentos tudo apagou

e o que ainda resta...
são expectativas de um futuro sem rumo
onde as ilusões e os sonhos
se juntaram em conluio contra mim
ou contra todos os sonhadores...

José Carlos Moutinho 
12/9/2026

terça-feira, 8 de setembro de 2026

#NOS BRAÇOS DO TEMPO

 

NOS BRAÇOS DO TEMPO
José Carlos Moutinho
1/9/2026
Portugal
 
Nos braços do tempo
vão-se aconchegando
memórias.
 
As mais frágeis sucumbem
aos movimentos,
enquanto as mais fortes
sobrevivem.
 
Porque o tempo é
displicente,
não nos segura com muito cuidado
e carinho,
deixa-nos simplesmente
estar por aqui.
 
Há casos em que o tempo
esquece muitos daqueles
que dele foram companhia.
Abandona-os ao destino
de outra viagem,
fazendo com que percam
este tempo,
por achar que já não lhes pertence.
 
Assim, há que aproveitar
enquanto podemos,
usar o colo e os braços
do tempo,
porque, de repente, muito de repente,
ele, o tempo, pode
deixar-nos cair.
 
Sorrio ao meu tempo,
que ainda me tem em si,
com o merecido cuidado
que dele, francamente, espero.
 
E desejo que não me abandone
tão depressa.
 
Se o fizer,
garanto-lhe 
que me zangarei com ele.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

#PALAVRAS SOLTAS

 

PALAVRAS SOLTAS 

Deixem que as minhas palavras voem
por aí, sem destino

porque elas são portadoras de sentimentos,
onde se instalaram imensas emoções...

...por isso, pela sua liberdade
deixem-nas voar, na serenidade do seu
propósito
já que elas jamais vos farão qualquer dano
mesmo que as leiam e não gostem.

Porque são palavras singelas,
vestidas de sorrisos,
que somente desejam abraçar os passantes
e a todos que tenham o gosto de ler

Ler poesia, ou ainda que essas palavras
não tenham a honra de o ser
são, certamente,
pedacinhos de momentos privilegiados
de alguém que pensou em vós
 
José Carlos Moutinho 
3/9/2026

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

#CAMINHEI PELAS MARGENS DO TEMPO

CAMINHEI PELAS MARGENS DO TEMPO
José Carlos Moutinho
Portugal
19/8/2026
Quando as viagens eram provocação
dos momentos,
e cada passo parecia desafiar
o silêncio dos caminhos,

fui caminhando.

Depois, enquanto as margens floriam,
voltei a caminhar cautelosamente
por atalhos onde sombras maldosas
espreitavam, mas não penetravam
na quietude dos meus passos.

Mas o tempo, sempre premente,
não se compadecia das minhas amarras.
Insistia para que as soltasse,
uma a uma,
as que me prendiam ao desassossego,
e me deixasse levar
por estradas que ainda não conhecia.

Receoso, mas corajoso,
atrevi-me.

Havia estradas turvas
por palavras vãs,
outras mais condescendentes
vestidas de sorrisos.

E lá fui eu, afoito,
agarrado à minha resiliência,
levando comigo
a inquietação e a esperança,
ao encontro de alguma fonte
que me saciasse
a sede da serenidade.

Fui longe, confesso.

Tão longe
que quase me perdi
na lonjura do meu desejo.

Mas tive a ventura de encontrar,
inesperadamente,
bem distante,
onde a minha vista se perdia,
qualquer coisa que pensei ser miragem.

Parei.

Olhei.

E não era.

Era um belo oásis,
silencioso como se esperasse por mim.

E ali estava a fonte.

A tal fonte
que durante tanto tempo procurei,
sem saber sequer
se existia.

Aproximei-me.

Bebi.

E, pela primeira vez,
percebi que talvez a serenidade
não estivesse no fim da viagem,
mas em ter tido coragem
para chegar até ela.



Entrevista com Planeta Azul, editora de Calemas

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