NAQUELE DIA DE UM CERTO TEMPO
José Carlos Moutinho
Portugal
25/8/2026
Quando o entardecer se apressava
para sentir o abraço da noite,
falaste-me de coisas lindas,
em palavras simples,
mas em cada uma delas
eu sentia soar uma melodia,
como uma canção de amor.
Talvez as tuas palavras simples,
que me dizias,
já tivessem a essência do amor,
mas que tu, pela inocência,
desconhecias.
Ou teria sido esse
apenas o meu sentir?
Todavia, as sombras
da noite que se fechava
não conseguiam esconder
a luz que nos envolvia,
como uma magia de sentimentos.
Havia naquele espaço
que ocupávamos, sentados
na rocha que o mar beijava
a cada movimento das ondas,
um misticismo delicado,
sensual, silencioso, ternurento.
E as ondas,
numa cumplicidade tranquila,
iam-se solidarizando
com o nosso enlevo.
Entretanto, o breu
toldou-nos a visão do horizonte.
Levantámo-nos.
Caminhámos de mãos dadas,
num gostoso mutismo,
certamente cada qual
mergulhado no seu pensamento.
Despedimo-nos com um longo beijo apaixonado
e prometemo-nos voltar a ver
no outro dia
ou… quando o destino quisesse.
Reflecti no que havia passado.
Não sei se seria amor
ou alguma paixão fugaz.
Admito, porém,
que nada disso me importou.
Sei que vivi momentos maravilhosos.
De repente, um som estranho
desperta-me daquela maravilhosa
viagem onírica.
Ao meu lado, dormia serenamente
minha mulher…
que, felizmente, não acordou,
livrando-me de ter de me desculpar
da culpa que eu não tive.
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