José Carlos Moutinho
Portugal
20/07/2026
Muitas vezes, no cacimbo da minha vida,
escutava eu o doce farfalhar das acácias,
enquanto as estrelas acendiam meus sonhos;
o luar cintilava quando me falavas de amor.
No calor com que a noite me abraçava,
fazia-me reviver sonhos místicos do kissangi,
quando eu percorria as vermelhas picadas
em viagens de encantos e imensas lonjuras.
Sim, havia em mim um eterno encantamento
pelas cores tropicais e pelos sons dos batuques
que, em noites de breu, trespassavam os ventos,
mergulhando no âmago dos meus sentimentos.
O presente roubou-me a vivência desses dias,
restando-me apenas o abrigo da memória,
e esta saudade feiticeira que me aperta o peito,
mas que também me acarinha na lembrança.
O tempo corroeu o longe entre ontem e hoje,
impiedoso e indiferente à dor que me subjuga.
Os anos passam com gélida displicência,
como se as histórias de outrora fossem sonhos.

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