José Carlos Moutinho
Portugal
19/8/2026
Quando as viagens eram provocação
dos momentos,
e cada passo parecia desafiar
o silêncio dos caminhos,
fui caminhando.
Depois, enquanto as margens floriam,
voltei a caminhar cautelosamente
por atalhos onde sombras maldosas
espreitavam, mas não penetravam
na quietude dos meus passos.
Mas o tempo, sempre premente,
não se compadecia das minhas amarras.
Insistia para que as soltasse,
uma a uma,
as que me prendiam ao desassossego,
e me deixasse levar
por estradas que ainda não conhecia.
Receoso, mas corajoso,
atrevi-me.
Havia estradas turvas
por palavras vãs,
outras mais condescendentes
vestidas de sorrisos.
E lá fui eu, afoito,
agarrado à minha resiliência,
levando comigo
a inquietação e a esperança,
ao encontro de alguma fonte
que me saciasse
a sede da serenidade.
Fui longe, confesso.
Tão longe
que quase me perdi
na lonjura do meu desejo.
Mas tive a ventura de encontrar,
inesperadamente,
bem distante,
onde a minha vista se perdia,
qualquer coisa que pensei ser miragem.
Parei.
Olhei.
E não era.
Era um belo oásis,
silencioso como se esperasse por mim.
E ali estava a fonte.
A tal fonte
que durante tanto tempo procurei,
sem saber sequer
se existia.
Aproximei-me.
Bebi.
E, pela primeira vez,
percebi que talvez a serenidade
não estivesse no fim da viagem,
mas em ter tido coragem
para chegar até ela.

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